31 de outubro de 2010

Mudanças

O dia começou como era normal. Com todos os rituais matutinos completos e então parti para a minha viagem também ela habitual.
Caminhando pelas ruas de Lisboa, senti a brisa que envolvia o dia quente. Abstrai-me do mundo, tal como fazia todos os dias. Caminhei, pensando nas próximas horas onde teria de estar fechado no escritório, sem nada divertido para fazer. Mas assim é o mundo e a diversão vai ficando perdida nas memórias de anos passados.
Os meus passos eram cansados e irregulares. Cansados pela falta de vontade e de café e irregulares pela maldita calçada portuguesa. Parei junto a uma tabacaria, com a curiosidade normal de ver os títulos dos jornais. Contemplando também o meu reflexo, vi algumas rugas a aparecer nos cantos dos olhos. A idade já não perdoa. Os meus olhos castanhos tinham perdido a curiosidade natural e o brilho que outrora tanto sucesso tinha tido. As entradas que agora surgiam tornavam surreal a memória de alguma vez ter possuído uma farta cabeleira castanha. Ainda assim, pensei, nada mau, para um tipo com quarenta anos.
Retomei a minha viagem, e parei junto à passadeira, o sinal estava vermelho. Por um momento, apenas um me deixei absorver pelo mundo que me rodeava. Vi um jovem, no máximo nos seus dezasseis anos. Não olhou para o sinal, atravessou a estrada. Não sei explicar o que senti, corri. Lembro-me de o ter empurrado e depois, depois nada.
Senti-me a acordar, ao início estava entorpecido. Mas depois, nunca me tinha sentido assim. Uma energia quase sobrenatural tomava conta de mim. Olhei então à volta e senti-me perdido. Lisboa com o peso do passado tinha desaparecido. Estava agora numa gigantesca planície, parecia não ter fim. Relembrava-me algo, mas não sabia onde tinha visto tal paisagem.
Senti então o aroma pela primeira vez, cheirava a manteiga derretida na frigideira. Sempre tinha sido o meu cheiro favorito, desde miúdo. Sorri, com genuína vontade. Algo em mim parecia dividido, estava precisamente no que parecia ser o meio da planície.
Segui para sul, sempre tive uma paixão secreta pela palavra sul. Mas como sabia eu que aquele lado era o sul? Não sabia, mas acreditava que sim. Iniciei então, mais uma vez, a minha viagem. Depois de ter caminho durante o que me pareceu horas, vi ao longe uma mansão branca. O estranho é que sendo esta uma planície enorme e a mansão genuinamente gigantesca, como não a tinha visto antes? Naturalmente segui viagem até à porta da mesma. Bati à porta e entrei.
- Olá! Está alguém? – Perguntei com boa educação.
O que me surpreendeu foi que apesar de ter visto uma gigantesca mansão, o interior desta era um pequeno quarto com uma porta. Limpo, com um aroma a canela. Uma mesa e duas cadeiras completavam o cenário. A porta abriu-se.
- Senta-te – Pediu um velho que entrou na casa.
Assim o fiz.
- Sabes porque estás aqui? – Perguntou ele
- Provavelmente é efeito das drogas no hospital – respondi estranhamente agastado contra o velho.
- Longe disso meu amigo. Estás aqui por ser parte do teu caminho. – Referiu com um sorriso brilhante.
- Caminho? Qual caminho? – Perguntei, agora curioso
- O que todos devemos fazer. – Respondeu sem fazer qualquer sentido.
Nesse momento o velho levantou-se da sua cadeira, e onde antes estava a porta, surgiu agora uma cómoda. Abriu uma das gavetas e retirou um embrulho.
- Abre – disse enquanto me entregava um pacote – É o teu bilhete de entrada.
Abri e dentro estava uma echarpe de uma cor fantástica. Azul misturada com verde. Nunca tinha visto tal cor, mas passou a ser a minha preferida. Quando voltei a olhar para cima, estava de novo na planície.
A casa e o velho já não estavam lá, ou talvez eu já não estivesse. Continuei a caminhar segurando o pacote. Estava com sede, não me tinha apercebido disso antes, mas tinha sede.
Ao longe, pareceu ter visto algo em movimento. Caminhei até lá. Vi um mar de um cor-de-rosa infantil. As ondas possuíam uma beleza indiscritível para os meus olhos. Quando me aproximei, a água perdeu a sua cor, tornou-se num espelho do mundo. Estranhei, mas não mais do que a casa desaparecida. Ajoelhei-me ao pé da água, curioso para sentir a sua temperatura. Quando a encarei, o meu rosto tinha desaparecido. Era agora uma cara animalesca, melhor dizendo, focinho. Comprido, peludo. Tinha duas cores predominantes, o preto e o branco separados por riscas. Assustado fechei os olhos, e levei um pouco de água à cara. Focinho. Senti a frescura desta e o seu gosto doce na boca. Será que era um rio? Mas então como tinha ondas? Nada disto fazia sentido. Abri os olhos e voltei a colocar as mãos na água. Onde antes tinham estado as minhas mãos experientes e calejadas, estavam agora garras, afiadas. Senti-me um animal, parecia um animal.
Desesperado quis correr, e corri. O mais depressa que podia. Pelo caminho coloquei as mãos que já não o eram no focinho onde antes tinha a cara. Nada tinha mudado. Os cheiros assumiam agora uma experiencia totalmente nova.
Enquanto corria, pareceu-me ver um acampamento perto de uma qualquer construção. Corri para lá. Saltando com uma agilidade, agora, animal por cima de várias pedras e ruinas de uma antiga casa, conseguia sentir o chão verdadeiramente áspero. Todos os meus sentidos estavam apurados. Quando cheguei perto do acampamento, fiquei abismado com o que vi. Estavam quatro lagartos gigantes e humanóides a beber chá. Sentados à volta de uma mesa que também não me era estranha, bebiam com os humanóides dedos esticados como qualquer tia de Cascais. As quatro cabeças se voltaram-se para mim.
- Queres chá? É fresco! De mentol! O teu favorito. – Perguntou um deles
- Não. Só quero saber o que faço aqui – supliquei
- Fazes a tua viagem – respondeu outro dos lagartos
- Que viagem é esta? E porque raio sou agora um animal? E como é que os lagartos bebem chá? – Parecia louco enquanto perguntava tudo isto
- Bebemos chá porque não gostamos de café – respondeu ofendido o terceiro lagarto a falar – É a viagem que todos temos de fazer – completou
- E porque pareço um animal? – Insisti
- Porque tens espírito de um. Ratel mais propriamente. – Respondeu o último dos lagartos
- Só quero saber como acabo esta viagem – pedi
- Na torre – responderam os quatro – Mas para lá chegares, tens de vencer um de nós. – Avisou o lagarto
- Vencer? Do que raio estão vocês a falar? – Perguntei, sentindo-me estúpido e drogado por estar a falar com lagartos.
- Eu sou a Desilusão. Os meus irmãos são a Cólera, Medo e Traição. – Apresentou-se e aos seus irmãos o primeiro dos lagartos que tinha falado comigo – E o Medo já te escolheu.
Sem mais qualquer palavra ou oportunidade de perguntas, o lagarto agora conhecido por Medo, atacou. Fui violentamente espancado, sem nunca perceber o que se estava a passar. Aos poucos comecei a responder, algo dentro de mim me impelia a continuar, a nunca desistir. A força deste animal povoava agora a minha alma. Já não havia medo. E foi aí que percebi. Tinha medo de perder e não puder completar a minha viagem. Como tal sabia a resposta.
- Rendo-me – Declarei – Ficarei aqui com vocês pois esse é o meu maior medo.
- Palavras sábias – Disse Cólera – Venceste o novo medo dentro de ti, podes passar. – Disse apontando o caminho para uma ponte.
Atravessei a ponte e encontrei uma cabana. Entrei. Sorri com a diferença para a mansão. Esta cabana era enorme por dentro, tinha várias portas e escadas e possui duas cores apenas. Preto e branco.
- Trazes o bilhete? – Perguntou uma voz atrás de mim
Virei-me e vi uma criança, em tudo normal. Menos nos olhos. Ambos possuíam espirais giratórias, como daquelas que se olharmos muito tempo ficamos zonzos. Um tinha fundo branco e riscas negras e o outro era o oposto.
- Sim tenho. – Disse enquanto entregava o pacote que o velho me tinha dado – bilhete para onde? – Perguntei curioso
 - Para o destino que te for dado. – Respondeu. Era difícil perceber se olhava para mim ou através de mim.
- Tudo em ordem, podes seguir. Sobes a escada à tua direita e entras na segunda porta vermelha. Não na azul! – Disse enquanto se afastava atarefado
Assim fiz como me foi dito, quando acabei de subir as escadas, passei as mãos pelo cabelo, surpreendido de já não ser um Ratel. Já gostava daquela estranha forma. Fui em direcção à porta, tendo olhava para a azul com uma mórbida curiosidade. Algo me tentava, mas sabia que não era esse o meu destino. Abri a porta.
- Mãe ele está a acordar! – Ouvi o meu irmão muito ao longe – Já saiu do coma.

Por: Miguel Brito

2 comentários:

Fiacha disse...

Interesante e que nos pode levar a reflexões, como será acordar de um coma ? poderá ser desta maneira, atraves de algo que nada tenha a ver com aquilo que é o nosso dia a dia ?

espero nunca passar por um momento como o vivido pelo protagonista deste conto.

Miguel disse...

Este é u dos meus favoritos de sempre. Um pouco incompreendido, é normal. É muito de mim. Não "me coloco" normalmente no que escrevo, mas neste sim, a personalidade do senhor é uma que conheço bem. :)

Obrigado pelo comentário caro amigo :)